O Futuro é Vegano?
Os impactos ambientais e sociais do agronegócio e o papel do veganismo no futuro do planeta
Você fecha a torneira enquanto escova os dentes? Separa o lixo reciclável do orgânico? Toma banhos rápidos? Não utiliza sacolas plásticas? Opta pelo uso de transportes públicos? Aposto que faz tudo isso e ainda mais para cumprir sua parte na redução dos impactos ambientais do nosso planeta… Mas comparadas aos danos e gastos da agropecuária, essas soluções se tornam completamente inúteis.
A média global da pegada hídrica pelo uso doméstico fica entre 8% e 10%, enquanto a da agropecuária é de 65% a 70% do consumo da água, aponta o estudo feito pelo professor doutor Maurício Waldman, da USP, sendo necessários 15,5 mil litros de água para produzir um quilo de carne bovina. O Relatório Anual do Desmatamento, feito pelo Mapbiomas em 2021 no Brasil, comprovou que o agronegócio foi o responsável por 97% do desmatamento ilegal naquele ano, além de ser responsável pelo desmatamento e a invasão de mais da metade das 573 terras indígenas brasileiras. Não suficiente, estudos apontam que as emissões de gases de efeito estufa da produção agropecuária podem aumentar em 58% até 2050.
São inúmeros os dados que denunciam os impactos ambientais causados pela pecuária no planeta. Evitar o consumo de carne e laticínios é a melhor maneira de reduzir esses números, apontam estudos, além de prolongar vidas e evitar cerca de mais de 11 milhões de mortes prematuras até 2050. A Comissão EAT-Lancet de Food, Planet, Health reuniu mais de 30 cientistas para chegar a um consenso científico sobre o que é uma alimentação saudável e sustentável, a qual seria baseada em grãos, legumes, folhas, vegetais, frutas secas e frescas. Áqueles que não conseguem se adaptar a uma dieta estritamente vegetal, o consumo ideal de carne vermelha seria de 14 gramas, 29 gramas de frango e 13 gramas de ovos.
Laura Dicker, 23, é criadora de conteúdo e entusiasta da culinária vegana. Vegana desde 2020, Laura conta que não foi uma mudança simples e que não foi feita da noite para o dia. “Eu comecei me informando sobre o movimento, entendendo o que ele é, o que ele representa. Comecei a testar receitas, e aprendi a cozinhar, porque eu não sabia antes de me tornar vegana... Esses passos foram fundamentais para a minha transição.”, relata.
O veganismo é definido como uma filosofia e estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais, seja na alimentação, no vestuário, na diversão e no profissional, como declarado pelo “The Vegan Society”.
Apesar dos diversos benefícios, o veganismo foi criado no intuito de colocar um fim na exploração animal, em um contexto e realidade onde tudo é feito visando um único objetivo: o lucro. “Inúmeros motivos me levaram a virar vegana, mas as causas animais e ambientais foram um grande incentivo.”, explica. Laura também diz que começou a entender mais sobre o assunto após assistir alguns documentários. Foi o documentário “Terráqueos” o que mais a chocou e a levou a se tornar vegetariana, e um ano depois, vegana.
Além de defender os animais e o meio ambiente, o veganismo também apresenta diversas vantagens para a saúde. Pesquisas apontam que uma alimentação sem produtos de origem animal auxiliam na prevenção de doenças graves, e diminuem os níveis de colesterol e glicose no sangue, já que, em tese, é uma alimentação pobre em gordura e rica em vitaminas, fibras e minerais. Ainda assim, ela obviamente não é uma garantia de saúde.
“Não senti muitas mudanças drásticas no meu organismo quando me tornei vegana porque minha alimentação, mesmo comendo carne, sempre foi bem variada, apesar de que me alimento melhor agora. Mesmo assim, agora me sinto mais leve depois de comer, o que também depende muito! Existem alimentos veganos que não são saudáveis, gosto de reforçar que saúde não vem só da alimentação”, relata Laura e reitera que a alimentação é só uma parte do que podemos fazer pela nossa saúde.
Uma alimentação vegana precisa ser equilibrada e repleta de proteínas, vitaminas, cálcio, grãos, alimentos orgânicos e naturais, assim como qualquer outra. É o básico que funciona, para acabar de uma vez por todas com o estigma de que ser vegano é caro, o que também não significa que ela precisa ser sem graça. A culinária à base de plantas pode ser muito surpreendente e apresentar um mundo de novos sabores e possibilidades.
Em consequência ao crescimento do movimento, com cerca de 80 milhões de pessoas que se declaram adeptas ao veganismo, o surgimento de produtos no mercado e restaurantes de todos os tipos não param de surgir. Apesar disso, pessoas veganas ainda encontram certas dificuldades pelo caminho. “Mesmo que o veganismo tenha crescido, a maioria das pessoas ainda segue uma alimentação onívora. A maior parte dos restaurantes pode não ter opções veganas… Eu tive algumas dificuldades quando viajei pro Peru, que foi minha primeira viagem internacional sendo vegana, e até em algumas cidades da Europa eu achei um pouco difícil! Mas hoje em dia tem muita informação disponível, então é sempre bom explorar as opções viáveis e planejar. A maioria dos apertos que passei foi por falta de planejamento”, explica.
Independente das desavenças, Laura diz que pretende levar o veganismo por toda a sua vida. “Acredito que a alimentação vegana possa transformar as questões ambientais que estamos passando agora. Claro que isso não é uma questão individual, o contexto capitalista em que vivemos também influencia muito em tudo isso, mas acredito que o veganismo faça parte dessa vontade de mudar o mundo e transformar ele num lugar melhor para os animais e os seres humanos. Eu acho que atualmente o veganismo é mais importante do que nunca”, declara.
Laura aconselha que, para uma melhor transição, estudar e entender sobre o movimento são as melhores alternativas. Dessa forma pode ser muito mais fácil de mudar, se adaptar e se manter desse modo, pois são mudanças que impactam todos os quesitos em sua vida, seu modo de pensar, e não só a alimentação. Ir aos poucos também é fundamental. “Quando você respeita seu tempo, entende suas limitações e sua realidade, acaba se tornando algo que você consegue aderir melhor ao longo da sua vida. Você pode fazer o que está ao seu alcance e adaptar o movimento à sua realidade”, finaliza.


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